Vozes de mulheres do campo, das águas e da floresta afirmam que o 8 de março é mais um dia da luta por sobrevivência e dignidade
Por Cláudia Pereira | APC
Em um país que registrou o trágico recorde de 1.470 feminicídios (homens que matam mulheres) em 2025, o 8 de março transcende a celebração para se tornar um grito por justiça e pelo direito à existência. Com uma média de quatro mulheres mortas por dia, em uma país onde a maioria do eleitorado é feminina —, a gravidade da situação levou o estado de São Paulo a ser denunciado ao Ministério Público Federal por omissão governamental no combate à violência de gênero.
Das agressões verbais à falta de moradia, mulheres e meninas brasileiras enfrentam violações diárias. No entanto, longe de ocuparem apenas o lugar de vítimas, elas são protagonistas de transformações sociais. Para dar rosto e voz a essa resistência, compartilhamos as reflexões de duas lideranças representantes de Povos e Comunidades Tradicionais, ouvidas pela Articulação das Pastorais do Campo: uma voz quilombola das barrancas do Rio São Francisco e uma liderança indígena da Amazônia Rondoniense.
Marinalva Mendes: "O 8 de março é todo dia"
Às margens do Rio São Francisco, em Itacarambi (MG), a pescadora, quilombola e vazanteira, Marinalva Mendes lidera a resistência de 30 famílias pelo território quilombola centenário. Para ela, a data internacional é um lembrete de uma lida que não tem descanso.
A liderança quilombola observa com tristeza a escalada da violência e defende que a Lei Maria da Penha precisa de mais rigor, punindo inclusive as agressões verbais antes que escalem para o crime fatal. Sua estratégia de mudança passa pela educação: em sua comunidade, ela incentiva a participação dos homens nas reuniões, não apenas para articular a luta, mas para que conheçam os direitos das mulheres, uma forma de estimular o conhecimento.
Apesar de viver sob ameaça e integrar programas de proteção, ela mantém a cabeça erguida. "Somos mulheres lutadoras que não baixam a cabeça para nada".
Qual é o significado do 8 de março para você, que vive a luta diária às margens do rio Velho Chico?
Marinalva Mendes: Para mim, o 8 de março é todo dia. Nossa comemoração é diária, pois quem vive à beira do rio, planta para comer e pesca, levanta às quatro da manhã e não tem hora para dormir. É uma lida constante de cuidar, colher e, acima de tudo, lutar pelo território. É uma data especial porque somos lembradas pelas autoridades, mas o que buscamos de verdade é o reconhecimento e respeito.
O machismo ainda dita que o homem é a autoridade máxima. Mas, afinal, quem é que gera esses homens?
Marinalva: Somos nós. Sem as mulheres, eles não existiriam. Eles deveriam dar valor a quem os pariu. Até Jesus Cristo, para descer à Terra, teve que ser parido por uma mulher. Antigamente, no tempo dos meus pais, o homem era o soberano e a mulher nem votava, mas havia mais respeito pelo ser mulher. Hoje, parece que virou brincadeira: se a mulher cansa de ser humilhada e decide se separar, o homem acha que tem o direito de tirar a vida dela. Isso dói só de pensar.
Como mudar e sensibilizar os homens sobre a violência?
Marinalva Mendes: O caminho é trabalhar junto e educar. Na nossa comunidade, fazemos questão de que os homens participem das reuniões, principalmente quando falamos sobre os direitos das mulheres. Precisamos explicar que a lei não coloca a mulher acima do homem; ela garante que os direitos sejam iguais. Envolvo também as crianças, para que cresçam sabendo que não se pode ser violento e que pai e mãe devem ser respeitados.
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| Comunidade de Cabaceiras - foto: João Victor |
Cacica Hozana: A resistência das "sementes teimosas"
No coração de Rondônia, Hozana Castro Puruborá carrega o marco de ser a primeira cacica do estado. Para ela, as mulheres indígenas são "sementes teimosas" que enfrentam ataques contínuos do Estado e do capitalismo.
Hozana alerta sobre o modelo atual modelo “desenvolvimento" que ameaça a vida. Para o povo Puruborá, o avanço do agronegócio é visto como um rolo compressor que destrói a floresta e contamina a água com veneno. "Como sobreviveremos amanhã se a natureza morrer hoje?" questiona a Cacica.
Qual a importância do 8 de março para você, como cacica em um território sob conflito diário?
Cacica Hozana: Acredito que nós, mulheres lutadoras, não deveríamos ser lembradas apenas no dia 8 de março, mas sim todos os dias. Somos sementes teimosas. Gostaríamos que o Estado brasileiro não focasse em datas, mas em uma proteção real e contínua. Hoje, o sistema prende e logo solta, tirando nosso direito de viver dignamente.
Em 2025, o Brasil registrou índices alarmantes de feminicídio. Como você reflete sobre essa realidade de violência contra a mulher?
Cacica Hozana: É muito triste ver mulheres sendo "tombadas" enquanto seguimos lutando, muitas vezes de mãos atadas, mas sempre na linha de frente. Tanto nas aldeias quanto nas cidades, sempre temos alguém que perdemos. A justiça ainda é muito fraca, não só no combate à violência contra a mulher, mas também na proteção de nossas crianças. O que mais dói é ver que a violência, muitas vezes, não vem de fora, mas acontece dentro de nossas casas.
Como você vê as ameaças à Amazônia, como o agronegócio e impactos nos rios?
Cacica Hozana: O capitalismo, sob o nome de agronegócio, funciona como um rolo compressor que destrói a floresta, a terra e a água para beneficiar poucos. O que eles chamam de desenvolvimento, nós vemos como destruição. Nós não olhamos apenas para o hoje; olhamos para os nossos filhos, netos e as futuras gerações. Como sobreviveremos amanhã se a natureza morrer hoje?
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| Imagem, acervo do Povo Puruborá |
A beleza como ato de dignidade e sonhos compartilhados
Para essas lideranças, a beleza é indissociável da resistência e da identidade cultural. Marinalva Mendes encontra sua força junto as companheiras da comunidade. Sua beleza está no momento que ajusta seu turbante frente ao espelho, sentindo-se maravilhosa simplesmente por ter vencido mais um dia de luta. Ela descreve as mulheres de sua comunidade como guerreiras e trabalhadoras que não perdem o gosto pelo riso e pela celebração, mesmo diante das adversidades ou marcas do tempo. Nós gostamos da vida e por isso nos permitimos vadiar, farrear. Para a Cacica Hozana, a beleza Puruborá floresce na convivência harmônica com a Mãe Natureza, de onde extraem suas pinturas e medicinas tradicionais. É uma estética baseada na dignidade de quem não aceita caminhar atrás de ninguém, mas sim lado a lado e ombro a ombro.
Embora separadas por milhares de quilômetros, Marinalva e Hozana convergem no mesmo sonho: a garantia do território. Seja nas barrancas do Velho Chico ou na imensidão da Amazônia, a mensagem dessas mulheres é clara: o respeito deve ser mútuo, a conscientização é o caminho e a defesa da vida é inegociável.
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